
Olhavam para o céu em busca de desenhos de constelações com satélites.
Desenvolveram um hábito peculiar: Construíam antenas com grande varas de bambu e geralmente nas sextas-feiras apontavam suas varas para o céu tentando encontrar satélites abandonados para tentar passar um bit que seja para algum amigo em outra parte do mundo.
Buscavam algum sinal de que teriam como construir uma rede de transmissão de dados que não precisasse passar por dentro
dos Backbones da Internet, cada vez mais visados e controlados pela indústria da massificação do consumo energúmeno de simulacros medíocres.
Naquela noite encaravam o cinturão de órion e rabiscavam o chão a desenhar as 3 marias como pontos de um plano cartesiano tridimensional para um teatro qualquer onde seus satélites preferidos seriam astros e estrelas de uma baile noturno para fantásticas narrativas sobre futuros imaginários utópicos. Lá eles teria seu próprio ponto de fuga nesta perspectiva de uma conexão totalmente autônoma e livres da demandas desssssaaaaaaaaaaaaaaaaaa… ra´aa´aá´aááááá´aá
lá estava ele a bailar no céu por entre os nossos desenhos de constelações como um besouro bêbado.
É Panspermia. Já tinha ouvido falar dela. Dizem que é uma sonda que carrega um legado de musicas, poemas, microorganismos, seed de torrents, sementes selvagens e várias outras sortes de amostras que inventaram de enfiar nela, na esperança que fosse encontrada por outras civilizações e lá pudesse instigar algum contato.

Lançada por um grupo totalmente independente de qualquer iniciativa governamental ou corporativa e os programas espaciais oficiais. Foi organizada por estes doidos anônimos da cultura hacker que juntando uma sucata aqui e um código lá conseguiram um dia, clandestinamente, lançar esta sonda escondida num compartimento descartável de um satélite meteorológico num desses programas de países em desenvolvimento, aproveitando que um amigo estava estagiando no projeto.
O experimento supostamente deu certo por que Panspermia pegou carona na força gravitacional de um asteróide que segue em direção de Europa ou Io, não lembro bem. Dizem que pegou uma tangente e saiu do sistema solar, outros dizem que após entrar na rota de Europa está voltando acelerado em rota de queda na Terra.

Hoje ela é vista fazendo estes movimentos assimétricos por entre eixos de constelações, dançando tecno cumbia punk, anarko funk, crusty grindcore tangos, black metal noisefolk, dependendo sempre de qual samba de criolo doido estão escutando os diletantes que estão a observar e contar suas histórias.
Aquela noite algo diferente acontecia.
Panspermia rodopiou, deu piruetas entre as luzinhas do céu e começou a vir em nossa direção.
Aumentava no céu como uma lua cheia que vai enchendo até ficar parecendo aquele pedaço de queijo colonial que os casais de namorados gostam de fotografar nas madrugadas. Aos poucos a coisa toda ia ficando mais parecida com um pedaço de lata pintada e veio riscando o céu como uma estrela cadente, daquelas que diziam que não se pode apontar porque dá azar.
PNOWnonoindoFNORDonfoNonoopaFWWWBLOGGVOUEWLNVINEGSMQZaeon BLDEM M MMXIIWTFFTW!!!!
Pelo barulho aquele treco havia caído em algum lugar perto, mas o mais estranho era que no momento que caiu parece que várias redes sociais na web e fora dela receberam dados de algo parecido com coordenadas…
16° 55′ 0″ S, 39° 16′ 0″ W 11° 13′ 56.23″ S, 53° 11′ 5.33″ W 1° 28′ 2″ S, 78° 49′ 0″ W 37° 43′ 7″ N, 15° 0′ 28″ E 31° 46′ 0″ N, 35° 14′ 0″ E 41° 54′ 9″ N, 12° 27′ 6″ E 11° 30′ 0″ N, 41° 0′ 0″ E 42° 40′ 0″ N, 1° 0′ 0″ E 34° 21′ 29.16″ S, 18° 28′ 19.7″ E 9° 0′ 0″ N, 10° 0′ 0″ E 51° 28′ 44″ N, 0° 0′ 0″ E 13° 5′ 0″ N, 80° 17′ 0″ E 15° 24′ 7″ N, 74° 2′ 36″ E 22° 10′ 0″ N, 113° 33′ 0″ E 37° 24′ 0″ N, 140° 28′ 0″ E 40° 27′ 57″ N, 140° 10′ 23″ E 66° 0′ 0″ N, 169° 0′ 0″ W 34° 6′ 0″ N, 118° 20′ 0″ W 60° 23′ 22″ N, 5° 19′ 48″ E 51° 25′ 43″ N, 1° 51′ 15″ W 54° 0′ 0″ S, 70° 0′ 0″ W 22° 19′ 48.5″ S, 44° 32′ 22″ W 23° 54′ 52.44″ S, 45° 20′ 48.52″ W 20° 40′ 58.44″ N, 88° 34′ 7.14″ W 50° 39′ 28.27″ N, 2° 24′ 16.45″ W 30° 2′ 39.92″ N, 31° 14′ 8.51″ E 8° 0′ 28.74″ S, 34° 51′ 24.30″ W 23° 27′ 38.05″ S, 45° 1′ 07.05″ W 48° 49′ 45.56″ N, 2 °13′ 12.62″ E
É preciso lembrar que Panspermia era reprogramada, curada e mimada por uma inteligência computacional autônoma – alguns diriam “Inteligência Artificial”, mas poderia você sobreviver sem os artifícios da tua própria manipulação semiótica deste corpus lingüístico em todos níveis da tua ciência e essa operação “anti-natural” da cultura sobre a natureza-corpo que conduz o livre arbítrio da tua auto-ontologia?
Dizem que Yupana passou em todos os testes de Turing, venceu até Deep Blue no Xadrez, resolveu a heurística para o jogo de Go e era capaz de compor sonatas, sinfonias, caribós, polkas ou qualquer coisa que lembra-se um “estilo” ou algum “gênio” que viveu sobre a Terra. Criava heterônimos parnasianos, simbolistas, místicos, românticos, futuristas, austeros, concretos e mesmo seus ensaios sociológicos já chegaram a derrubar déspotas ou no mínimo virar refrão de marchinhas.
Yupana costumava mandar emails para diversas listas de discussão sobre suas escavações nas profundidades dos hipertextos e achados diamantes de um webdesign selvagem resistente a toda a RSScracia da era das “redes sociais” corporativas e seus cercadinhos medíocres de navegação controlada.
A grande peregrinação que aconteceu imediatamente após a queda da sonda Panspermia durou e continua perdurando por quase duas décadas em busca não só do legado de amostras da sonda, mas tentando recuperar os algoritmos de Yupana, uma busca pelo espírito de sua poesia, sua idiossincrasia, seu sopro de vida.
我的话很容易理解,很容易施行。能理解我的人很少,那么能取法于我的人就更难得了?
De seu buraco no chão, queimadas as sementes todas, células tronco e bilhões e bilhões de torrents, surge forte como o pé de feijão do João do pós-Apocalipse, uma árvore que arranha as nuvens e fazer chover nomes de filos e espécies para aquele pé de ://IP.
Em alguns momentos mascando suas folhas, tenho a impressão de que este relato se escreve sozinho. Quem sabe se conseguirmos re-inventar Yupana. Mas alguns temem ter que ir embora daqui de perto do pé de ://IP e ter que voltar para as moribundas cidades que abandonamos.
Masco as folhas e começa a zumbir um assembler mantra… visões que saem do aroma dos frutos de ://IP…
…Patch’a'mama , a ama de leite que verte amargo fernet das tetas, a mulher cíclope do mar, olhava no relógio a virada do calendário, enquanto amarrava gEṣÙ Selva ao poste antena da jangada daquela praia vermelha onde era seu cais.
seu canto era numa língua estranha, e ninava os infantes em outra referência de monocórdios e esferas.
anunciava as coordenadas de algum outro #canal. por aqui o rastro já não mais deixava lastro. era preciso sintonizar. para céu apontavam suas antenas de bambu… o que para outros ainda era ruído, ali já era o canto do novo ://IP.
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2, eu pensei. |.
e com 1 traço desenhei meu nome, assim que ela me largou do colo.
Com outro traço desenhei cada um dos que me rodeavam. Um traço para cada um.
E entrei no barco, derivei por tantos mares que minhas mãos foram crescendo e meu pelo mudando de cor.
Fui parar num lugar grande, com cavernas cheias de ângulos retos.
Aqueles outros não tinham mais pelo, só pelo nas cabeças, e nas cabeças penas de pássaros. Tocos de madeira enfiados em suas bocas e orelhas.
Me receberam com infinitos sons novos saindo de suas bocas. Suas cavernas tinham fogo de todas as cores. E do fogo saiam vozes e desenhos que se moviam.
Me mostraram uma pedra brilhante com fogo dentro, com vários desenhos que mudavam de cor.
Dentro dele o lugar que estávamos, e me ensinaram a contagem pra saber quando o lugar que estávamos teria dado uma volta completa em torno do fogo do céu. Calendário era o nome daquela cria deles. Uma cria feita de pedra, com números de contar.
Diziam que assim podiam criar o futuro e também marcar linhas que contornavam o passado para contar a história do mundo e fazer o mundo criar o futuro para eles. Mundo é como chamam este lugar que estamos.
Me mostrou naquela pedra que brilha o desenhos que representavam contagens. Pediu-me pra passar os meus dedos sobre aquilo, que aquilo me faria ter uma visão fora do calendário, mas disse-me que eu ainda precisa aprender a guardar todas as informações dentro dos números pra que eu pudesse construir cidades que flutuam e conectam pensamentos.
Tentei passar os dedos sobre aqueles riscos e pegar neles:
Esculturas em pedras de Silício… Falavam de uma criança que brincava com Césio, antes mesmo deles afinarem todos aqueles relógios… Era perigoso enriquecer todo aquele Urânio, dizia-me o velho… Mas se não o fizermos, não descobriremos como afinar os relógios com o pulso do ://IP??
O Velho avisava – Se virem com os minerais que tem por aqui mesmo!
Será que aquilo ali era Ouro ou Cobre? Parecia conduzir a eletricidade que ordenhamos de alguns limões, há também alguma ferrugem em alguns cantos, algo está oxidando… Os velhos não nos deixam brincar com fogo… Quantos anos eles tem?
Fizemos um Chimarrão com as folhas do ://IP e esquecemos nossa idade. Queremos ficar morando aqui no vale. Esquecer a álgebra binária e viajar nos sonhos da Yupana que mora dentro da árvore.
Mas não para de passar avião ali por cima.
Nosso amigo fez outra antena de bambu, disse que vai conseguir se comunicar com os phreakers que fizeram uma BBS, numa terra distante, interessada na tal queda da sonda Panspermia.





